As decisões dos bancos sobre quanto pagar aos clientes podem influenciar também o mercado de ativos digitais. É o que indica um estudo publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), que analisou a relação entre as taxas dos depósitos bancários e a evolução de stablecoins pareadas ao dólar nos Estados Unidos.
O trabalho, divulgado em 13 de outubro de 2026, avalia se tokens lastreados em reservas, como USDC e USDT, disputam recursos com os depósitos mantidos no sistema bancário. A conclusão apresentada é que taxas mais elevadas oferecidas pelos bancos costumam ser acompanhadas por um crescimento mais lento da capitalização de mercado das stablecoins.
A pesquisa não representa uma nova regra para bancos, corretoras ou emissores de criptomoedas. Trata-se de um Working Paper do BIS, identificado como nº 1.382, elaborado para examinar a relação entre esses dois tipos de ativo. O estudo ajuda a mostrar como o ambiente de juros pode afetar escolhas financeiras que normalmente são analisadas separadamente.
Como o estudo relacionou bancos e ativos digitais
Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados semanais dos Estados Unidos entre janeiro de 2019 e junho de 2025. A análise relacionou mudanças nas taxas oferecidas pelos bancos a alterações posteriores na capitalização de mercado das stablecoins, indicador que considera o valor total dos tokens em circulação.
O modelo também levou em conta outras condições capazes de influenciar o mercado. Entre elas estão os juros, o rendimento dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, o câmbio, o preço do Bitcoin e o nível de volatilidade dos mercados. Com isso, o estudo procurou separar o efeito das taxas dos depósitos de outros fatores que movimentam os ativos digitais.
Segundo a descrição oficial do Banco de Compensações Internacionais, a associação apareceu de maneira mais intensa no USDC do que no USDT. O BIS também informou que o mesmo padrão não foi identificado de forma equivalente em criptoativos que não são stablecoins.
Por que as taxas de juros entram nessa disputa
Stablecoins são tokens digitais projetados para manter paridade com uma moeda, neste caso o dólar, e lastreados em reservas. De acordo com o resumo do estudo, esses ativos podem desempenhar funções semelhantes às dos depósitos ao oferecer liquidez e meios de pagamento. A diferença destacada pela pesquisa é que, em geral, eles não pagam juros diretamente aos seus detentores.
Essa característica torna o nível das taxas bancárias relevante para a comparação. Quando os depósitos passam a oferecer remuneração mais atraente, manter recursos em uma conta bancária pode se tornar relativamente mais interessante do que manter um ativo digital sem rendimento direto. Nesse cenário, o crescimento da capitalização das stablecoins tende a perder velocidade, segundo a relação observada pelo BIS.
O resultado não significa que todos os usuários tomem a mesma decisão ou que uma mudança nas taxas provoque automaticamente uma migração entre contas bancárias e carteiras digitais. A pesquisa identifica uma relação nos dados agregados e considera diversas variáveis de mercado. Portanto, ela aponta uma possível competição por liquidez, mas não descreve o comportamento individual de cada investidor.
Diferenças entre USDC e USDT
A intensidade maior do resultado no USDC é um dos pontos específicos do estudo. A análise não apresenta os dois tokens como substitutos perfeitos nem afirma que respondem da mesma forma às condições bancárias. A diferença sugere que características próprias de cada stablecoin e do público que as utiliza podem ser relevantes para entender a demanda.
O fato de a relação não ter aparecido da mesma maneira em criptoativos que não são stablecoins também reforça o papel da estabilidade de preço nessa comparação. Bitcoin e outros ativos digitais podem ser afetados por expectativas de valorização, volatilidade e risco de mercado. Já as stablecoins analisadas foram observadas pelo BIS em uma função mais próxima à de instrumentos líquidos associados ao dólar.
Para o usuário, a principal consequência prática é que o custo de oportunidade de manter recursos em uma stablecoin pode mudar conforme o cenário de juros. Em períodos de taxas bancárias mais altas, a ausência de remuneração direta pode pesar na escolha. Em condições diferentes, a liquidez e a utilidade para pagamentos podem continuar sendo fatores relevantes, sem que o estudo estabeleça uma preferência geral.
O que a pesquisa não conclui
O Working Paper não anuncia uma política pública, não altera o funcionamento do sistema bancário e não cria exigências para emissores de stablecoins. Também não apresenta uma previsão sobre o preço futuro do USDC, do USDT ou de outros criptoativos. Seu foco é investigar, com dados dos Estados Unidos, como taxas de depósitos e capitalização de stablecoins se relacionaram ao longo do período estudado.
A publicação amplia a discussão sobre a integração entre o mercado cripto e o sistema financeiro tradicional. Ao observar juros, liquidez e meios de pagamento em conjunto, o BIS indica que a demanda por ativos digitais pareados ao dólar também pode reagir a decisões e condições presentes no setor bancário.

