Mercado de trabalho bate recordes de ocupação e carteira assinada, enquanto avanço da informalidade exige atenção de trabalhadores e empresas.
O mercado de trabalho brasileiro terminou o trimestre encerrado em julho com um dos resultados mais favoráveis dos últimos anos, mas os números escondem uma mudança importante na qualidade das novas ocupações. A taxa de desemprego caiu para 5,3%, recuo de 0,5 ponto percentual em relação ao trimestre encerrado em abril e de 0,3 ponto na comparação anual. Ao mesmo tempo, o país alcançou 103,3 milhões de pessoas ocupadas, o maior número desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em 2012. (Agência Gov)
O resultado interessa diretamente a quem está procurando emprego, já trabalha, pretende mudar de profissão ou depende da renda do trabalho para consumir e pagar dívidas. A melhora do emprego aumenta a circulação de dinheiro na economia e pode fortalecer o consumo, mas a alta da informalidade mostra que nem todas as novas oportunidades oferecem a mesma proteção. O cenário também ajuda a entender por que o mercado de trabalho continua resistente mesmo diante de juros elevados e de sinais de desaceleração econômica. Para os próximos meses, a principal dúvida é se o avanço da ocupação conseguirá continuar sem perda de renda ou de qualidade dos vínculos.
O que explica a queda do desemprego para 5,3%?
A queda da desocupação ocorreu em um cenário de expansão da população ocupada. Segundo o IBGE, o número de pessoas trabalhando chegou a 103,3 milhões, aumento de aproximadamente 1 milhão em relação ao trimestre encerrado em abril. O contingente de desempregados caiu para 5,8 milhões, redução de 503 mil pessoas em apenas três meses. Também houve diminuição da população subutilizada, que passou para 14,9 milhões, enquanto o número de pessoas que haviam desistido de procurar trabalho também recuou. (Agência Gov)
Esse conjunto de indicadores mostra que a melhora não ocorreu apenas porque algumas pessoas deixaram de procurar emprego. A força de trabalho chegou a 109,2 milhões de pessoas, também um recorde da série, indicando que mais brasileiros estavam participando efetivamente do mercado. Entre os setores, a construção foi o principal destaque no trimestre, com crescimento de 5,1% na ocupação e 371 mil pessoas a mais trabalhando. Na comparação anual, também houve avanço em transporte, armazenagem e correio, além de administração pública, educação, saúde e serviços sociais. (Agência Gov)
Por que a informalidade merece atenção mesmo com o emprego em alta?
O dado mais importante para interpretar o resultado com cautela é a taxa de informalidade. Ela chegou a 37,5% da população ocupada, equivalente a 38,8 milhões de trabalhadores. No trimestre anterior, o índice estava em 37,2%. O número de empregados do setor privado sem carteira assinada cresceu 3,6% em três meses, enquanto o contingente chegou a 13,8 milhões de pessoas. Isso significa que parte relevante das oportunidades criadas recentemente não veio acompanhada do mesmo nível de proteção associado ao emprego formal. (Agência Gov)
Por outro lado, o emprego com carteira também atingiu uma marca histórica. O setor privado chegou a 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada, mostrando que o mercado formal continua avançando mesmo com o crescimento proporcional da informalidade. Para o trabalhador, essa diferença pesa em aspectos como contribuição previdenciária, acesso a direitos trabalhistas e previsibilidade de renda. Para as empresas, o cenário indica um mercado aquecido, no qual encontrar profissionais pode continuar sendo um desafio, ao mesmo tempo em que custos, qualificação e produtividade ganham importância nas decisões de contratação.
A queda do desemprego pode aumentar o poder de compra dos brasileiros?
A melhora do emprego tende a favorecer o consumo porque mais pessoas passam a receber renda regularmente. Entretanto, o comportamento dos salários mostra que esse efeito precisa ser observado com cuidado. O rendimento real habitual ficou em R$ 3.762 no trimestre encerrado em julho, praticamente estável em relação aos três meses anteriores, embora tenha crescido 3,3% na comparação com o mesmo período de 2025. A massa de rendimento real, por sua vez, atingiu R$ 383,5 bilhões, o maior valor da série histórica, com crescimento anual de 4,1%. (Agência Gov)
Na prática, isso significa que a economia brasileira conta com mais pessoas trabalhando e uma quantidade maior de renda circulando, mas o avanço não é distribuído de maneira uniforme. A estabilidade do rendimento médio no curto prazo pode limitar a capacidade de algumas famílias de ampliar gastos, principalmente diante de crédito caro e compromissos financeiros acumulados. Ainda assim, uma massa salarial recorde pode sustentar setores dependentes do consumo doméstico e ajudar pequenos negócios que atendem diretamente as famílias. O mercado de trabalho, portanto, continua sendo uma das principais forças de sustentação da atividade econômica.
O cenário também pode influenciar empresas e decisões de contratação nos próximos meses. Um mercado com desemprego baixo reduz a disponibilidade de trabalhadores e pode aumentar a disputa por profissionais em determinadas áreas, principalmente onde existe escassez de mão de obra qualificada. Ao mesmo tempo, a estabilidade da renda e o aumento da informalidade indicam que não basta observar apenas o número de vagas criadas para avaliar a saúde do mercado. A qualidade dos postos, os salários, a produtividade e a capacidade de transformação dessas oportunidades em empregos sustentáveis serão determinantes para saber se o atual ciclo de melhora poderá continuar.
Os próximos indicadores do IBGE serão importantes para confirmar se o desemprego permanecerá próximo dos níveis historicamente baixos ou se a atividade econômica começará a perder força diante das condições financeiras ainda restritivas. Por enquanto, os dados mostram um mercado de trabalho resiliente, com recordes de ocupação, emprego formal e massa salarial. Para o brasileiro, a notícia é positiva principalmente porque aumenta a possibilidade de encontrar trabalho e mantém a renda agregada da economia em patamar elevado. O ponto de atenção está na informalidade e na estabilidade recente dos salários. Se a geração de empregos continuar acompanhada de maior formalização e ganhos reais de renda, o resultado poderá se transformar em uma melhora mais consistente do padrão de vida e do consumo nos próximos meses. (Agência Gov)

