O Banco Central prevê que a economia brasileira continuará perdendo ritmo nos próximos anos, em um movimento que também deve afetar a expansão do crédito. A avaliação consta na edição do terceiro trimestre do Relatório de Política Monetária do Banco Central, divulgada em 24 de setembro de 2026.
De acordo com o documento, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027. As projeções representam uma desaceleração em relação às expansões de 3,4% registradas em 2024 e de 2,3% em 2025. O relatório também estima inflação de 4,9% em 2026, acima da meta central de 3%.
Para o Banco Central, a perda de velocidade da atividade ocorre de forma disseminada e alcança diferentes componentes da economia. Indústria, serviços, consumo e investimentos aparecem entre as áreas afetadas pelo ambiente de política monetária restritiva e pelas condições financeiras mais apertadas.
Crédito deve crescer em ritmo menor
O cenário de juros elevados tende a limitar a expansão das operações de crédito, principalmente nas modalidades de prazo mais longo. Na prática, a combinação entre custo maior do dinheiro, inflação ainda acima da meta e expectativas desancoradas pode reduzir a disposição de consumidores e empresas para assumir novos compromissos financeiros.
O Relatório de Política Monetária indica que a desaceleração não deve ocorrer de maneira uniforme em todas as linhas. As operações com recursos livres, nas quais as instituições financeiras têm maior autonomia para definir condições de concessão, já apresentam sinais de perda de ritmo.
Ao mesmo tempo, modalidades direcionadas continuam avançando. Entre elas estão o crédito imobiliário e operações destinadas a empresas que contam com apoio de fundos garantidores. Essa diferença mostra que o comportamento do mercado de crédito depende tanto do nível geral dos juros quanto das características de cada linha e das condições de acesso ao financiamento.
Efeitos para consumidores, empresas e bancos
Para as famílias, um mercado de crédito menos dinâmico pode significar maior dificuldade para contratar empréstimos, financiamentos e outras operações de prazo mais longo. A análise do Banco Central não determina as condições oferecidas individualmente por cada instituição, mas ajuda a explicar por que bancos podem adotar critérios mais rigorosos na avaliação de renda, capacidade de pagamento e risco.
As empresas também podem sentir os efeitos do cenário, especialmente aquelas que dependem de capital de giro ou de financiamento para investir. Com a atividade econômica em desaceleração, a demanda por crédito pode perder força, enquanto o custo das operações permanece pressionado. Para os bancos, esse ambiente exige atenção à qualidade das carteiras e à possibilidade de aumento da inadimplência, embora o relatório não indique uma previsão específica para esse indicador.
A composição do crédito também ganha importância. Enquanto as linhas com recursos livres mostram sinais de desaceleração, operações direcionadas seguem em expansão. Essa dinâmica pode alterar a participação de diferentes modalidades no total das carteiras bancárias e influenciar a estratégia das instituições na oferta de recursos a pessoas físicas e jurídicas.
Avaliação do Copom reforça cenário de cautela
A ata da 281ª reunião do Comitê de Política Monetária, publicada pelo Banco Central em 22 de setembro de 2026, também registra sinais de desaceleração no crédito com recursos livres. A reunião do Copom ocorreu nos dias 15 e 16 de setembro.
Segundo a ata, o ambiente de política monetária restritiva deve continuar influenciando a economia e as condições de financiamento. O documento destaca, porém, que o crédito direcionado mantém trajetória diferente em segmentos como o imobiliário e nas operações para empresas apoiadas por fundos garantidores.
A avaliação reforça que os efeitos dos juros não aparecem apenas na decisão de contratar ou não um empréstimo. Eles também influenciam o prazo das operações, o custo financeiro para famílias e empresas e a disposição dos agentes econômicos para consumir e investir. Por isso, a evolução do crédito é acompanhada pelo Banco Central como um dos elementos importantes para medir a transmissão da política monetária à atividade.
Inflação e expectativas seguem no centro do cenário
A projeção de inflação de 4,9% para 2026, acima da meta central de 3%, ajuda a explicar a cautela indicada nos documentos oficiais. Quando a inflação permanece pressionada e as expectativas para os preços futuros ficam desancoradas, a política monetária tende a permanecer restritiva por mais tempo, afetando o custo e a disponibilidade do crédito.
O Banco Central projeta, nesse contexto, uma economia com crescimento mais moderado em 2026 e 2027. A desaceleração esperada do crédito no Brasil não significa interrupção das operações bancárias, mas indica um ritmo menor de expansão e condições potencialmente mais seletivas, sobretudo nas linhas livres e de prazo mais longo.

